Tem jeito certo de ler livros?

Figura em estilo de desenho japonês, um homem negro em um ambiente gótico segura um livro.

Há muitas formas de se consumir conteúdo, e minha preferida é ir marcando trechos interessantes (“highlights”), às vezes com comentários curtos, para ao fim tentar avaliar de 1 a 5 e emitir uma opinião geral na forma de resenha crítica.

Até o momento, fui fazendo isso de forma informal, sem muita estrutura, e a resenha se limitava a ser exposta timidamente em clubes de livros ou conversas pessoais. A partir de hoje, pretendo adotar um método mais objetivo e público.


Marco trechos e faço notas enquanto leio

Meu Kindle com um trecho marcado e com nota d’O Diário de Anne Frank.

Enquanto vou lendo, marco tudo o que achar digno de nota, geralmente o objetivo central dos parágrafos. Mas não de todos os parágrafos, porque alguns são só “encheção de linguiça” ou coisa assim. Tento imaginar como se eu fosse fazer um resumo da obra reunindo meus highlights.

Não raro, também adiciono notas, como comentários. Em e-readers fica mais sutil, mas em livros físicos não tenho pudor e escrevo nas laterais mesmo, a ideia é serem curtas. Costuma ser minha interpretação de alguma frase reflexiva, adição de contexto histórico ao que foi dito para que faça completo sentido, detecção de algum viés do(a) autor(a) ou (em caso de livros antigos) tentar forçar a aplicação para algo que esteja acontecendo no mundo atual.

Posso dar alguns exemplos. Enquanto lia O Príncipe de Machiavelli, quando o autor menciona “fortuna” pela primeira vez, adiciono uma nota esclarecendo que não significa necessariamente “dinheiro” mas sim “sorte” no vocabulário do autor. Outro exemplo, ao ler O Diário de Anne Frank, nos trechos em que ela menciona ter ouvido bombas, pesquiso a data na Internet para anotar o que estava acontecendo no país dela. Ainda n’O Diário de Anne Frank, quando ela diz que uma pessoa é o pior ser humano do mundo, escrevo do lado que as palavras duras são o viés de uma adolescente sob estresse escrevendo particularidades e é preciso cautela ao ler.

A ideia é interagir ativamente com o livro. Usá-lo como ferramenta intelectual. E não de mera “contemplação estética” a ser preservada na caixa. Embora isso possa diminuir o preço caso você queira digamos revender, o valor foi ampliado. Você guarda suas impressões pessoais e cria uma nova obra única. É extremamente interessante revisar essas notas depois, sejam dias depois ou anos depois, é surpreendente (pelo bem ou pelo mal) perceber como o “eu” passado era alguém diferente.

Minhas anotações do livro Discovering Chess Openings do mestre John Emms.

Caso realmente não queira ou não possa sujar seu livro físico, um caderno separado serve, eu fazia isso nos meus tempos de escola e faculdade, pois os livros eram emprestados da biblioteca. Era mais trabalhoso, porém até mais eficiente, prendia mais o conteúdo na cabeça.

Um parágrafo como “registro de leitura” após cada sessão lida

Um registro de leitura meu sobre um capítulo do How to Win at Chess publicado no app brasileiro Skoob.

Se hoje eu li um capítulo, gosto de passar o olho por cima das minhas notas e fazer um resumo curtíssimo (normalmente sem spoilers) de tudo novo que li.

Às vezes é só uma ou duas frases, às vezes é um parágrafo mais robusto, mas a ideia é só revisar e pôr na ponta da caneta o que absorvi dos trechos marcados e notas que fiz durante aquele dia.

Uso o app Skoob para fazer isso, mas caso contrário usaria algum outro app de mini blog como o X (Twitter), e às vezes até anoto no X mesmo mas com um linguajar mais focado e assunto mais técnico.

Costuma levar cerca de 5min para fazer isso. E tem o mesmo efeito intrigante ao reler isso no futuro. Mas por ser menos granular que as notas, é possível fazer isso facilmente com mais frequência.

E como bônus, essas impressões são úteis pois podem ser revisadas após a conclusão do livro, me ajudando a elaborar uma resenha crítica e dar uma avaliação pessoal.

De 1 a 5 estrelas, quão bom foi o livro?

Não é tão simples quanto parece dar uma nota de 1 a 5 para um livro. Perceba. Imagine que um livro de Filosofia mudou completamente sua forma de ver a vida. Agora imagine um dos melhores livros de Cálculo. Dar 5 estrelas para ambos significa que tive o mesmo prazer de leitura nos dois? Que senti o mesmo impacto pessoal? Que ambos deveriam vender igual?

A solução para isso é usar critérios de avaliação diferentes para cada gênero textual, para cada tema. Embora haja um conjunto de critérios em comum a todo livro, há sempre um pontinho final que depende exclusivamente do objetivo do formato. Como mencionei antes, uso livros como ferramentas intelectuais, e seguindo esse raciocínio eu não poderia medir um martelo pela sua capacidade de cortar papel.

Dito isso, eis o framework que decidi seguir, cada critério satisfeito é +1 estrela:

  • ⭐️ Clareza: ideias bem organizadas para o público-alvo.
  • ⭐️ Profundidade: vai além do superficial, elabora, não se limita ao óbvio.
  • ⭐️ Execução: estrutura consistente e sem enrolar.
  • ⭐️ Inovação: contém coisas não escritas em outras obras, ou está olhando algum conceito já existente sob uma ótica muitíssimo original.
  • ⭐️ Propósito do gênero: impacto geral a qualquer pessoa…
    • 🧠 Filosofia (e mesmo alguns tipos de ficção séria): capaz de expandir a visão de mundo ou comportamento de forma significativa, como um novo par de óculos.
    • 👷‍♂️ Técnico (e jogos como xadrez): capaz de aumentar grandemente a capacidade técnica ou profissional e não é facilmente substituível por manuais online ou vídeos curtos.
    • 📖 Ficção (que não se proponha a se enquadrar em Filosofia acima): história memorável e única, talvez até digna de repetir a prazerosa leitura.

Como a resenha crítica (vide seção seguinte do texto) já será encharcada de minhas opiniões, aqui no momento de atribuir as estrelas pretendo diminuir meu viés. A avaliação ainda é subjetiva, mas me distancio um pouco. Então, por exemplo, se eu já sou expert em um determinado assunto técnico, é muito possível que um livro sobre isso me geraria pouco impacto, mas ainda darei a estrela se eu sentir que o público alvo do(a) autor(a) teria sim esse impacto desejado.

Posso editar a lista acima no futuro. Mas ela só inclui os temas que pretendo ler e tecer resenhas públicas à respeito. Há outros tipos de livro que gosto de ler, mas não mencionarei, pois, como diria o Brás Cubas de Machado de Assis, este blog é casto, ao menos na intenção, na intenção é castíssimo.

Sobre a resenha crítica (ou resenha opinativa)

Falar sobre o gênero textual da resenha crítica seria um artigo inteiro à parte. Especialistas em Letras já discorreram muitíssimo sobre, e não pretendo me repetir, é conhecimento enciclopédico.

Mas o que há de mencionar aqui é que minha ideia é escrever blog posts contendo essas resenhas junto de uma nota de 1 a 5 sobre cada livro que eu julgar importante fazê-lo. E não farei isso encarando uma tela em branco na esperança de lampejos de criatividade, e sim metodicamente colhendo os frutos de meus registros de leitura, como também minhas notas e ocasionais citações razoáveis e didáticas da obra.

Ou seja, todos os artefatos que este manual aqui sugere fazer… Tudo se conecta de forma razoavelmente linear, culminando na manifestação da resenha e, esperançosamente, numa absorção crítica e de qualidade de cada livro.

Por quê? Para quem?

Faço isso pois tenho prazer em refletir sozinho no silêncio da madrugada. E ao estruturar meus pensamentos na ponta da caneta, ficam mais organizados para serem posteriormente acessados ou até comunicados em conversas.

E, se um dia eu ficar senil, que fique registrado que um dia pude ir ao banheiro sozinho e que tinha opiniões próprias, interesses que se forem estudados revelarão o que embasava a outrora funcional massa cinzenta. Tive brio. 🤌

Em última instância… Gosto de ler e escrever. E tal motivo já me basta.

“Sou minha crítica melhor e mais feroz. Sei o que é bom e o que não é. A não ser que você escreva, não saberá como é maravilhoso (…). E, se não tiver talento para escrever livros ou artigos de jornal, sempre posso escrever para mim mesma. (…) Quero continuar vivendo depois da morte! E por isso agradeço tanto a Deus por ter me dado esse dom que posso usar para me desenvolver e para expressar tudo o que existe dentro de mim!”

(Annelies M. Frank)

Até a próxima!

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